Mãe-de-OuroAproximadamente 4 min de leitura

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Essa entidade, descrita como um espírito feminino que se revela sob a forma de uma luz dourada ou bola de fogo que flutua no ar, não é apenas uma história regional, é um poderoso arquétipo que integra elementos de riqueza, natureza, feminino e justiça divina.

O núcleo do simbolismo da Mãe-de-Ouro reside na sua manifestação como luz. Em praticamente todas as culturas, a luz é o princípio da criação, da consciência e da divindade. A luz dourada, em particular, transcende o espectro comum. É a cor do Sol, associada à perfeição, à sabedoria (iluminação) e à imortalidade. No simbolismo cristão, o ouro e a luz dourada representam o Reino dos Céus, no Egito Antigo, o ouro era considerado a carne dos deuses.

A Mãe-de-Ouro, como uma luz errante, simboliza algo precioso que é, ao mesmo tempo, escondido, os tesouros subterrâneos, e revelado, o brilho que aponta o caminho. Sua luz é um convite, mas também um aviso: É a sabedoria que orienta o buscador de coração puro e a fênix que cega o ganancioso.

A principal função folclórica da Mãe-de-Ouro é guardar tesouros e minas de ouro. O ouro é, inegavelmente, o símbolo máximo de valor, pureza e poder. Sua resistência à corrosão o tornou sinônimo de eternidade.

No contexto simbólico e alquímico, o tesouro escondido no subterrâneo representa o inconsciente humano. Os minérios e o ouro são a matéria-prima que precisa ser lapidada. A Mãe-de-Ouro, como guardiã, é o aspecto da natureza que protege sua essência mais pura contra a exploração superficial e irresponsável. Ela personifica a mãe-terra que nutre, mas também se vinga quando violada.

O elemento feminino na Mãe-de-Ouro é crucial. No simbolismo, as figuras femininas ligadas à terra e à riqueza, como deusas celtas, gregas ou romanas, frequentemente representam a fertilidade, a abundância e a Lei Natural. Ela é a Grande Mãe, a personificação da natureza selvagem e não domada.

Como guardiã, ela estabelece uma fronteira moral. Sua punição aos gananciosos e exploradores insere o elemento de justiça cármica1. Ela não apenas protege o ouro físico, ela protege o valor intrínseco das coisas contra a ganância materialista. Em um mundo dominado pela exploração mineral, essa figura ressoa como um lembrete da necessidade de respeito e equilíbrio com o meio ambiente e com a própria riqueza. Ela julga a intenção por trás da busca.

Embora a Mãe-de-Ouro seja tipicamente brasileira, seu simbolismo se alinha a arquétipos globais:

  • Dragões e Grifos da Mitologia Europeia e Asiática: Seres mitológicos que habitualmente guardam vastos tesouros em cavernas e montanhas. O simbolismo é idêntico, a necessidade de provar virtude e coragem para obter a riqueza.
  • Willa e Laima da Mitologia Eslava e Báltica: Espíritos femininos da natureza que aparecem em forma de luz ou névoa, ligadas ao destino e à proteção de tesouros naturais.
  • Gênios e Espíritos da Mina, passando pela alquimia e Mitologia Germânica: Entidades, muitas vezes anãs ou elementais, que vivem em subsolos e minas, guardando o segredo da transmutação. A busca do ouro alquímico, que é a perfeição espiritual.

Em essência, a Mãe-de-Ouro é um símbolo completo que nos ensina que a verdadeira riqueza não pode ser tomada, mas sim conquistada pelo mérito moral. Ela é a manifestação luminosa de que a natureza é uma força viva, justa e seletiva, que oferece seus dons apenas àqueles que entendem o profundo valor simbólico e não apenas o preço material. Ela nos convida a buscar a luz (sabedoria) antes de buscar o ouro (riqueza).

 

1 – Justiça cármica: O termo se refere ao princípio de causa e efeito, conhecido como Carma em filosofias orientais, aplicado ao senso de justiça. Significa que as ações de um indivíduo, sejam elas boas ou más (a causa), inevitavelmente retornarão a ele como consequências ou resultados (o efeito). No contexto da Mãe-de-Ouro, a punição aos gananciosos representa essa justiça natural, a ganância (ação negativa) gera uma perda ou infortúnio (consequência negativa), garantindo um equilíbrio moral.

Valter Cichini Jr:.

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