Mboi-GuaçuAproximadamente 3 min de leitura

O nome Mboi-Guaçu tem origem na língua Guarani, onde “Mboi” significa cobra ou serpente, e “Guaçu” traduz-se como grande ou gigante. Esta criatura colossal é, em sua essência, um ser mítico das águas, um vigilante da natureza e dos seus limites. Embora lendas regionais no Sul do Brasil, como a de São Miguel das Missões, no Rio Grande do Sul, a associem a episódios de sacrifício, trevas e destruição após a ocupação de um templo, a sua raiz simbólica mais ampla, em diversas culturas indígenas sul-americanas, está intimamente ligada aos poderes elementais da água e da terra.
Para compreender a magnitude de Mboi-Guaçu, é preciso primeiro entender o simbolismo universal da serpente:
- Regeneração e Ciclos: A serpente é o arquétipo da metamorfose e da imortalidade devido à sua capacidade de trocar de pele. Esse ato simboliza a renovação, a passagem do tempo e o ciclo ininterrupto de morte e renascimento, um conceito que a transforma em símbolo da eternidade em diversas tradições, como o ouroboros, o dragão ou serpente que morde a própria cauda.
- Força Telúrica e Cósmica: Por rastejar sobre a terra, a serpente liga-se às energias telúricas (da terra) e ao Inframundo, sendo frequentemente vista como guardiã de tesouros e conhecimentos ocultos. No entanto, em mitos cosmogônicos, grandes serpentes ancestrais são as canoas que trouxeram os primeiros humanos, ou o próprio elemento que costura os mundos (céu, terra e água), conferindo-lhe um papel de matriz criadora.
O que distingue Mboi-Guaçu é sua associação direta com as águas dos rios, oceanos e, no mito, as calamidades naturais como enchentes e maremotos, o que sugere um poder capaz de desequilibrar a própria paisagem.
Nesse contexto, a serpente aquática encarna a ambivalência elementar:
1 – Potencial Destrutivo e Caos (Aspecto Negativo): Quando despertada, Mboi-Guaçu se manifesta como o Caos primordial, a força descontrolada da natureza que pode engolir e destruir a civilização humana, simbolizado pelas enchentes e maremotos. Ela representa o lado sombrio do inconsciente, o medo humano diante da força bruta dos elementos que escapam ao nosso controle.
2 – Guardiã e Fonte de Vida (Aspecto Positivo): Em muitas cosmologias indígenas, grandes serpentes aquáticas, como a Sucuri ou a Jiboia, são as guardiãs das águas potáveis e cavadoras dos rios, simbolizando o fluxo ininterrupto e a vitalidade que a água traz. Matar essas serpentes, segundo algumas tradições, seria secar os rios, mostrando que a sua ira é, em última análise, a defesa da própria vida aquática. A serpente aquática é o fluxo da vida, a força pulsante que, se respeitada, garante a subsistência.
A lenda de Mboi-Guaçu, como qualquer símbolo poderoso, funciona como um aviso e um guia. Ela nos lembra da fragilidade da nossa existência frente aos poderes da natureza e da necessidade de viver em harmonia com o meio ambiente. Ela não é apenas um monstro a ser temido, mas um ensinamento sobre o respeito aos ciclos da água e da terra. A sua simbologia da serpente, que se renova e liga os mundos, é um espelho para a nossa própria busca por transformação e pelo conhecimento que reside nas profundezas, tanto da Terra quanto do nosso próprio ser.




