Negrinho do PastoreioAproximadamente 4 min de leitura

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Na vastidão da cultura popular brasileira, em especial no folclore do Rio Grande do Sul, existe uma figura cuja narrativa toca os pilares do drama humano e da fé, o Negrinho do Pastoreio. Mais do que uma simples lenda, este mito é um poderoso complexo simbólico que nasceu da dor da escravidão e se elevou como um emblema de justiça divina e esperança para os desamparados.

O Negrinho do Pastoreio é um mito de origem afro-cristã que cristaliza o horror do sistema escravista do século XIX. A lenda narra a sina de um menino escravizado, órfão e sem nome, o “Negrinho”, cuja única protetora era a Virgem Maria, a quem chamava de Madrinha.

Partindo da escravidão e do castigo temos o Símbolo da Vítima Inocente e do Mártir. O núcleo da narrativa é a injustiça e a crueldade. Ao perder um cavalo baio, muitas vezes por armação do filho do estancieiro, o menino é punido de forma desumana, ele é chicoteado e abandonado sobre um formigueiro. O formigueiro, neste contexto, não é apenas um instrumento de tortura, ele é o símbolo da degradação absoluta, onde o corpo, já sem direitos, é entregue a uma morte lenta e insignificante. O Negrinho, no entanto, não é um mártir da Igreja, mas sim um mártir popular, canonizado pelo sofrimento e pela piedade do povo que o viu morrer. Ele se torna o símbolo universal da inocência brutalmente oprimida.

O clímax simbólico ocorre na manhã seguinte. O estancieiro, ao retornar para confirmar a morte, é confrontado com um milagre de teor cristão, o Negrinho está de pé, ileso, com a pele lisa, montado no cavalo perdido e ladeado pela Virgem Maria. A Madrinha, Nossa Senhora, representa aqui a Justiça e a Misericórdia Divina que intervêm no mundo corrompido para resgatar a vítima. A luz que emana do Negrinho ileso não é apenas um milagre físico, é a luz da verdade que expõe a escuridão da crueldade do senhor. O corpo sem marcas, resgatado do formigueiro, simboliza a superação da morte e do sistema opressor. O Negrinho parte, livre, montado no cavalo baio, conduzindo a tropilha, num ato de libertação que transcende a vingança e afirma a soberania do espírito.

O Negrinho do Pastoreio se manifesta em, pelo menos, três grandes vertentes simbólicas:

O simbolismo passa pelo intercessor dos desamparados e das causas perdidas. Pede-se a sua ajuda, acendendo-se um toco de vela, símbolo de luz na escuridão e de humildade, para encontrar objetos perdidos, metaforicamente, o rumo ou a esperança perdida.

Podemos também observar pelo aspecto sociocultural e político, onde temos a denúncia moral da escravidão e a afirmação identitária da negritude. A lenda, popularizada em um contexto de luta abolicionista, serviu como forma de revolta imaginária contra a brutalidade, reforçando a fraternidade e a condenação moral do estancieiro.

Já no aspecto mítico e arquetípico temos o Guia que retorna como espírito luminoso para ajudar os perdidos. A figura do Negrinho galopando com sua tropilha, símbolo de condução e orientação, pelas coxilhas é vista como um espírito protetor, que orienta os viajantes e os campeiros.

O objeto perdido, que as pessoas pedem ao Negrinho que ajude a encontrar, é a extensão de um simbolismo maior. Encontrar uma chave ou um objeto é um ato de fé, pedir ao Negrinho é reconhecer que a Justiça e a Verdade, mesmo que perdidas na opressão, podem ser restauradas por um poder superior. A vela acesa não é apenas a moeda de troca, é a luz do pedido sincero, que se junta à luz milagrosa que o Negrinho carrega para iluminar o que está na escuridão do esquecimento ou do mal.

O Negrinho do Pastoreio é um símbolo vivo de que a redenção pode florescer onde houve a maior das crueldades. Ele nos ensina que a inocência ultrajada não se perde, mas é elevada a um plano superior, transformando-se em força auxiliar.

Em um mundo onde as injustiças e as perdas ainda ecoam, a imagem do Negrinho, o espírito luminoso que encontra o que foi subtraído pela escuridão, continua a ressoar profundamente na experiência humana. Ele é a prova folclórica e espiritual de que, no embate entre a opressão terrena e a justiça transcendental, a fé e a verdade sempre encontrarão um caminho para galopar livres.

Valter Cichini Jr:.

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