Tutu-MarambáAproximadamente 3 min de leitura

No folclore brasileiro, uma das figuras mais intrigantes e carregadas de simbolismo é o Tutu-Marambá. Frequentemente associado ao “Bicho-Papão” ou ao “Cuca”, o Tutu é uma assombração infantil descrita como uma criatura informe, escura e sem rosto definido.
Seu nome carrega raízes profundas: “Tutu” deriva do quimbundo1 ki-tutu, que significa “ogro” ou “comilão”, enquanto “Marambá” remete a algo confuso ou assustador.
Diferente de outras criaturas folclóricas que possuem uma forma física clara, o Tutu-Marambá simboliza o “medo do informe”. Ele representa o perigo que espreita nas sombras, o desconhecido que habita os cantos escuros do quarto ou os vãos das portas. Na pedagogia popular de séculos passados, essa entidade era invocada através de cantigas de ninar para silenciar crianças inquietas, estabelecendo uma fronteira simbólica entre a segurança do colo materno e o perigo do mundo externo.
Embora o Tutu-Marambá seja uma figura tipicamente luso-brasileira com influências africanas, ele se conecta a uma rede global de símbolos de controle e proteção:
- O Ogro Devorador: Em diversas mitologias, a figura que “come” crianças simboliza a passagem do tempo ou a severidade da natureza que não perdoa a imprudência.
- A Sombra Psicológica: Para a psicologia analítica, o Tutu representa a “sombra”, aqueles aspectos que tememos e que projetamos na escuridão para evitar o confronto com nossas próprias ansiedades.
- O Guardião da Ordem: Em muitas sociedades, figuras semelhantes, servem como símbolos de autoridade. Eles reforçam a necessidade de obediência e o respeito aos limites impostos pelos pais e pela comunidade.
Compreender o simbolismo de figuras como o Tutu-Marambá é entender como a humanidade processa o medo. Esses símbolos não existem para torturar a imaginação, mas para ensinar a cautela e o respeito ao desconhecido. Eles dão nome ao inominável, permitindo que o ser humano, desde a infância, aprenda a lidar com as dualidades da vida: a luz e a sombra, o seguro e o perigoso.
A relevância dos símbolos permanece intacta mesmo em um mundo tecnológico. Eles continuam sendo a ferramenta mais eficaz para transmitir ensinamentos que as palavras sozinhas não conseguem alcançar, mantendo viva a rica tapeçaria da experiência humana através das gerações.
1 – O quimbundo (ou kimbundu) é uma das línguas bantas mais faladas em Angola, especialmente na região de Luanda. Durante o período colonial, teve uma influência profunda na formação do português do Brasil. Muitas palavras do nosso cotidiano, como caçula, moleque, samba e o próprio tutu, têm origem nesse idioma. No contexto do folclore, o quimbundo forneceu a base semântica para diversas entidades que hoje compõem o imaginário popular brasileiro, unindo a ancestralidade africana à construção da identidade nacional




