HelAproximadamente 5 min de leitura

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Filha de Loki e da gigante Angrboda, irmã de Fenrir e Jörmungandr, ela governa o reino dos mortos que também leva seu nome: Hel. Nas fontes nórdicas medievais, especialmente na Edda em Prosa1 e na Edda Poética1, Hel aparece como uma entidade ligada à morte, ao subterrâneo, ao frio, ao destino inevitável e à fronteira entre o visível e o invisível. Mais do que uma “deusa da morte” no sentido destrutivo, Hel simboliza a condição inevitável do fim, o recolhimento da matéria e o mistério daquilo que permanece oculto após a vida.

O próprio nome Hel carrega uma camada simbólica importante. Sua raiz germânica está associada à ideia de “esconder”, “encobrir” ou “ocultar”. Em termos simbólicos, isso aproxima Hel do arquétipo do véu, da caverna e do subsolo, espaços que representam o desconhecido, o silêncio e aquilo que a consciência humana não consegue acessar plenamente. Em muitos dicionários de símbolos, o subterrâneo é compreendido como lugar de transformação, gestação e retorno às origens. Assim, Hel não representa apenas a morte física, mas também o recolhimento para um estado oculto de passagem.

Sua aparência é uma das imagens mais poderosas da simbologia nórdica. As fontes descrevem Hel como metade escura, por vezes negra ou azulada, e metade cor de carne, viva. Essa dualidade faz dela um símbolo da coexistência entre vida e morte, decomposição e permanência, luz e sombra, matéria e espírito. Em leitura simbólica ampla, Hel expressa a inevitável divisão que acompanha toda existência humana, somos, ao mesmo tempo, presença e ausência, corpo e finitude. Sua forma partida lembra outros símbolos de dualidade encontrados em várias culturas, como yin e yang no pensamento chinês, o claro e escuro da alquimia, ou as divindades que unem criação e destruição em tradições antigas.

Na cosmologia nórdica, Hel governa o reino para onde iam muitos mortos que não caíam em batalha. Diferente de interpretações posteriores influenciadas pela noção cristã de inferno, Hel não era necessariamente um espaço de punição moral. Seu domínio representava antes um lugar de acolhimento sombrio, de permanência e continuidade pós-vida. Simbolicamente, isso revela uma visão mais complexa da morte, não como castigo, mas como passagem natural. Muitas culturas compartilham essa percepção, Hel se insere nesse grande arquétipo universal do “reino abaixo”, onde a morte é continuidade e não aniquilação absoluta.

Do ponto de vista psicológico e simbólico, Hel pode ser compreendida como a senhora da sombra. Ela guarda aquilo que foi esquecido, reprimido ou enterrado. Em leitura junguiana mais ampla, ainda que fora do contexto original nórdico, o subterrâneo costuma representar o inconsciente profundo. Nesse sentido, Hel simboliza o contato com dores antigas, traumas, lutos e aspectos negados da personalidade. Entrar em Hel, simbolicamente, é descer às regiões internas que evitamos visitar. É o confronto com a perda, o medo e a finitude.

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A ligação de Hel com o frio também possui forte carga simbólica. Seu reino é associado à névoa, escuridão, imobilidade e gelo. O gelo, em muitos sistemas simbólicos, representa suspensão, preservação e estagnação. Aquilo que congela deixa de se mover, mas não desaparece. Isso faz de Hel uma imagem do tempo suspenso, da memória que permanece, da dor silenciosa e dos ciclos que aguardam transformação.

Por ser filha de Loki, Hel também carrega a herança simbólica da ruptura e da ambiguidade. Loki é a força do caos, da transgressão e da desestabilização. Hel surge dessa linhagem como uma consequência inevitável da desordem cósmica, a morte como parte da estrutura do mundo. Isso a torna uma figura liminar, isto é, situada entre fronteiras, entre ordem e caos, entre vida e fim, entre visível e oculto.

Na vida humana, Hel se manifesta como símbolo de encerramentos. Ela aparece em períodos de luto, despedidas, crises emocionais profundas, transformações internas e até no fim de antigas identidades. Há momentos em que a existência exige uma descida, o término de uma relação, a perda de alguém, o colapso de uma certeza, o silêncio depois de uma ruptura. Hel simboliza esse espaço escuro que não é apenas dor, mas também travessia.

Por isso, sua simbologia não deve ser reduzida ao medo da morte. Hel representa o oculto, o inevitável, o recolhimento e a sabedoria silenciosa dos ciclos finais. Ela recorda que nem toda escuridão é destruição, às vezes, ela é pausa, transformação e retorno ao essencial. Na mitologia nórdica, Hel governa os mortos. No plano simbólico, ela governa aquilo que precisa ser encerrado para que outra forma de existência possa emergir.

 

1 – Eddas é o nome dado aos principais textos medievais que preservam grande parte da mitologia nórdica e das tradições escandinavas antigas. As Eddas se dividem, principalmente, em Edda Poética, uma coletânea de poemas mitológicos e heroicos de origem oral, e Edda em Prosa, escrita por Snorri Sturluson no século XIII, que organiza e explica narrativas, deuses e conceitos da cosmologia nórdica. Elas são fontes fundamentais para o conhecimento sobre Odin, Thor, Balder, Loki e o Ragnarök. Simbolicamente, as Eddas representam a preservação da memória, da tradição e da visão de mundo dos povos nórdicos.

Valter Cichini Jr:.

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