Matinta-PereiraAproximadamente 4 min de leitura

Em sua essência, um símbolo consegue condensar milênios de história e experiência em uma única forma, tornando o complexo acessível e o invisível, sentido. É por isso que figuras do folclore, como a Matinta-Pereira, transcendem a simples história e se instalam no domínio do símbolo.
A Matinta-Pereira é uma das figuras mais enigmáticas do folclore brasileiro, especialmente na região Norte e Nordeste. Ela é a manifestação de um arquétipo universal, a Bruxa ou a Mulher Velha que surge sob o manto da escuridão, com a capacidade de metamorfosear-se em um animal noturno, geralmente uma coruja.
Sua simbologia se desdobra em três grandes vertentes:
- O Medo Ancestral do Feminino Noturno, a Sombra1, em inúmeras culturas, a noite é um domínio associado ao inconsciente, ao perigo e ao incontrolável. A Matinta-Pereira, ao se manifestar após o anoitecer, encarna o feminino sombrio ou a Sombra da psique humana. Ela representa aquilo que a sociedade tenta reprimir ou ignorar, a sabedoria não-domesticada, o poder sexual e reprodutivo fora do controle patriarcal e a força da natureza em seu aspecto mais selvagem e indiferente. Não é apenas uma velha, mas o eterno poder da Deusa Escura, a face de Hécate ou Kali, que comanda os mistérios da morte e do renascimento.
- A transformação em coruja é o ponto central da sua simbologia. Em muitas tradições, a coruja é uma ave de presságio, ligada tanto à sabedoria, como a coruja de Atena, a deusa grega da sabedoria, quanto à morte, em função de seus hábitos noturnos e seu chamado muitas vezes interpretado como um mau agouro. A Matinta, na forma de coruja, simboliza a passagem e a transição. O seu grito alto e penetrante à noite não é apenas um som, é o chamado do Destino, exigindo atenção e, frequentemente, um preço. Ela é a mensageira que traz notícias difíceis ou a percepção daquilo que está oculto.
- O fato dela exigir uma oferenda, como tabaco ou fumo, para garantir seu silêncio, adiciona uma camada simbólica de troca e pacto. O tabaco, em muitas culturas nativas americanas e afro-brasileiras, é uma planta sagrada, usada em rituais para comunicação com os espíritos e o mundo espiritual. A Matinta, ao exigir fumo, não está apenas pedindo um presente, ela está estabelecendo um contrato com o morador. É o reconhecimento de que, para ter paz ou para manter o mistério em segredo, é preciso pagar um tributo ao poder do inconsciente ou aos espíritos da natureza. Esse pagamento simboliza a necessidade de respeitar as forças invisíveis que regem a vida e o mundo.
- O arquétipo da Matinta-Pereira não é exclusivo. Em diversas culturas, encontramos figuras que ocupam o mesmo espaço simbólico:
Temos bruxas e feiticeiras, de Circe na mitologia grega às bruxas medievais, todas representam a mulher com poder mágico e o medo da sua influência sobre os elementos e o destino.
Também podemos falar de transformadores e licantropos, que consiste na ideia de se transformar em animal (zoomorfismo), simbolizando a capacidade humana de transcender a forma física e acessar a natureza instintiva e selvagem.
Em muitas tradições africanas e indígenas, há espíritos ou entidades noturnas que exigem oferendas e protegem certos segredos, reforçando a ideia de que o poder mágico e o silêncio têm um preço.
A Matinta-Pereira, com sua dupla face de mulher-coruja, é um símbolo incrivelmente rico. Ela nos ensina que o mistério não pode ser simplesmente ignorado, mas deve ser respeitado e negociado. Ela é o espelho do nosso próprio medo do envelhecimento, da morte e do poder que reside fora das estruturas estabelecidas. Ao estudar a Matinta-Pereira, não estamos apenas lendo um conto de fadas, mas sim explorando o mapa de nossos próprios medos e a tapeçaria da nossa psique coletiva. O símbolo, assim, nos oferece a chave para compreender o que há de mais profundo e inalterável na experiência humana.
1 – A teoria da sombra, formulada por Carl Gustav Jung, descreve os aspectos da personalidade que a consciência rejeita ou reprime, impulsos, lembranças e traços que não se encaixam na imagem que temos de nós mesmos. Esses conteúdos, embora ocultos, continuam a influenciar pensamentos, emoções e comportamentos, surgindo muitas vezes em forma de projeções ou sintomas psíquicos, como a ansiedade. Integrar a sombra não significa “eliminar o negativo”, mas reconhecer e dar lugar a essas partes esquecidas, tornando-se mais inteiro e autêntico.
Carl Gustav Jung (1875-1961): Psiquiatra suíço e fundador da Psicologia Analítica. Jung expandiu a compreensão do inconsciente, introduzindo conceitos como arquétipos e o inconsciente coletivo, e enfatizou a importância dos símbolos e da jornada individual de autoconhecimento.




