NeithAproximadamente 5 min de leitura

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Na mitologia egípcia, uma das civilizações que mais refinou o uso de símbolos, as divindades não eram apenas personagens de histórias, mas personificações de forças cósmicas e psíquicas. Entre essas figuras ancestrais, destaca-se Neith, uma das deusas mais antigas e multifacetadas do panteão egípcio, cuja simbologia atravessa os séculos e ressoa perfeitamente com a jornada humana.

Neith, venerada intensamente na cidade de Sais, no Delta do Nilo, é frequentemente descrita nos textos antigos como a “Primeira”, aquela que existia antes que qualquer outra coisa passasse a ser. Os dicionários de símbolos a apontam como uma divindade autogerada, emergindo das águas primordiais do Caos (o Nun) para dar início à existência. Sob este aspecto, ela não possui gênero definido em sua origem mais remota, ela é tanto o princípio masculino quanto o feminino da criação.

O principal símbolo associado ao seu poder criador é o próprio ato de pronunciar o mundo. O mito conta que Neith criou o universo através de sete palavras ou sete gargalhadas que reverberaram pelo vazio. Esse simbolismo do som e do verbo criador não é exclusivo do Egito, ele se manifesta em diversas culturas, desde o “Haja Luz” das tradições abraâmicas até o som primordial Om do hinduísmo. Neith nos lembra que a criação nasce de um impulso interno que se projeta para fora, transformando o caos em ordem e dando forma ao que antes era invisível.

Uma das facetas mais ricas de Neith é sua associação com a tecelagem. Representada muitas vezes com um tear ou com o próprio sinal do nó de tecelagem sobre a cabeça, ela é a grande tecelã que fia a estrutura da realidade. Na antiguidade, o ato de tecer era visto como um reflexo direto da criação cósmica, cruzar fios verticais (o espírito) com fios horizontais (a matéria) para dar origem à vida manifestada.

Este simbolismo conecta Neith diretamente a outras grandes mitologias mundiais. Podemos traçar um paralelo claro com as Moiras da Grécia Antiga, as Parcas romanas ou as Nornas da tradição nórdica, divindades femininas responsáveis por fiar, medir e cortar o fio do destino humano. No entanto, enquanto as divindades gregas e nórdicas muitas vezes simbolizavam a inflexibilidade do destino individual, Neith representava a trama universal protetora. Ela fiava os próprios lençóis que envolviam as múmias, simbolizando que o mesmo fio que tece a vida terrena oferece proteção e continuidade na passagem para o além.

Como deusa ctônica1 e criadora, Neith também personifica a sabedoria profunda e oculta. Em Sais, o templo dedicado a ela continha uma das inscrições mais famosas da antiguidade, mais tarde registrada por filósofos gregos como Plutarco:

“Eu sou tudo o que foi, o que é e o que será, e mortal nenhum jamais ergueu o meu véu.”

Essa frase sintetiza o mistério da própria natureza e do conhecimento esotérico. O “véu de Neith”, que mais tarde influenciou o conceito ocidental do véu de Ísis, simboliza os limites da compreensão humana diante dos mistérios do universo. Ela representa a sabedoria que não se entrega facilmente ao intelecto lógico, mas que exige uma busca interna, uma maturidade espiritual para compreender as leis ocultas da vida. Ela é a mentora silenciosa, aquela que conhece os segredos da vida e da morte por ter testemunhado o início de tudo.

Paralelamente à sua natureza nutridora e sábia, Neith surge também como uma poderosa deusa da guerra. Seus símbolos mais antigos, que remontam ao período pré-dinástico, são duas flechas cruzadas sobre um escudo. À primeira vista, pode parecer contraditório que uma deusa da criação e da tecelagem seja também uma divindade militar, mas, na simbologia profunda, essas funções se complementam perfeitamente.

A guerra, no contexto mitológico de Neith, não representa a destruição cega ou a violência gratuita, mas sim a defesa ativa da justiça e da ordem universal (Ma’at) contra as forças do caos e da injustiça. Suas flechas são ferramentas de precisão, símbolos de foco, direção e da retidão mental necessária para vencer as batalhas internas e externas. Esse arquétipo da deusa guerreira e sábia encontra eco direto na deusa grega Atena e na romana Minerva, que também uniam o domínio das estratégias de batalha à arte da tecelagem e da sabedoria doméstica.

A relevância dos símbolos na vida humana reside na sua capacidade de permanecerem vivos, adaptando seus significados às necessidades de cada época. Neith, com sua rica tapeçaria simbólica, fala diretamente ao ser humano contemporâneo. Em um mundo frequentemente fragmentado, a deusa nos convida a enxergar a vida como uma grande teia, onde cada ação, pensamento e escolha individual representa um fio que altera a configuração de todo o tecido social e cósmico.

Compreender a simbologia de Neith é, em última análise, um convite ao autoconhecimento. Ela nos desafia a harmonizar nossas próprias polaridades, a sensibilidade para acolher e tecer relações humanas profundas (a tecelã) e a coragem e firmeza para defender nossos valores essenciais frente às adversidades da vida (a guerreira). Assim, os símbolos antigos deixam de ser relíquias de um passado distante e passam a funcionar como ferramentas psicológicas e espirituais indispensáveis para navegarmos com sabedoria pela experiência humana.

1 – Deusa ctônica: O termo “ctônico” (do grego chthónios, que significa “da terra” ou “profundezas”) refere-se a divindades que possuem uma ligação profunda com a terra, o submundo e as forças primordiais da natureza. Ao contrário dos deuses celestes, associados ao céu, ao sol e à luz visível, as divindades ctônicas governam os mistérios do interior da terra, o nascimento das sementes, a fertilidade do solo e o reino dos mortos. Na psicologia dos símbolos, esse arquétipo representa o contato com o inconsciente profundo, com as raízes da existência e com a sabedoria oculta que opera longe dos olhos do mundo exterior.

Valter Cichini Jr:.

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