TamandaréAproximadamente 3 min de leitura

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Os símbolos são a linguagem da alma. Eles não são apenas desenhos ou personagens, mas pontes que conectam o que vemos no mundo físico com verdades profundas da nossa existência. Através da simbologia, conseguimos entender medos, esperanças e a própria organização das culturas. No caso de Tamandaré, o herói mítico dos povos originários do Brasil, encontramos o símbolo da esperança e da continuidade diante do caos.

A história de Tamandaré começa com uma grande inundação enviada pela divindade para limpar a terra de conflitos e injustiças. Em quase todas as grandes civilizações, dos Sumérios com Gilgamesh aos Hebreus com Noé, o dilúvio simboliza a dissolução do antigo para o surgimento do novo. É o momento em que a água, elemento que representa as emoções e a purificação, retoma o espaço para que a vida possa ser “resetada”. Para o simbolismo, a água que destrói é a mesma que batiza e regenera.

Enquanto as águas subiam, Tamandaré e sua esposa buscaram refúgio no topo de uma palmeira, uma Pindo1. Na simbologia universal, a árvore é o Axis Mundi2, ou o eixo do mundo, que liga a terra ao céu. A palmeira, especificamente, representa a resiliência e a vitória, pois é uma árvore que se dobra mas não quebra, mantendo sua copa sempre voltada para a luz. Ao se abrigarem nela, o casal torna-se o elo entre o mundo que se foi e o mundo que viria a existir.

Diz a lenda que eles se alimentaram dos frutos da palmeira enquanto esperavam o nível das águas baixar. Esse detalhe é fundamental, o fruto simboliza o potencial da vida. Quando as águas recuaram, eles desceram e povoaram a terra. Tamandaré não é apenas um sobrevivente, ele é o “Pai da Humanidade” renovada. Ele carrega o símbolo do Pajé, aquele que detém o conhecimento sagrado e serve de mediador entre o plano espiritual e o humano.

A história de Tamandaré nos ensina sobre a impermanência e a capacidade humana de se adaptar e florescer após grandes crises. Em diversas sociedades, figuras como ele representam o guardião da memória. Entender esses símbolos nos ajuda a perceber que, por mais que os tempos mudem, a busca por proteção, renovação e um propósito maior permanece idêntica em todos os corações humanos.

 

1 – Pindo: No contexto da cosmogonia Tupi-Guarani, a Pindo, popularmente conhecida como Jerivá, não é apenas uma árvore frutífera, mas um elemento central da geografia sagrada. Para os povos originários, ela representa a abundância e a resistência. Na mitologia, a Pindo é descrita como a “árvore que toca o céu”, servindo de refúgio físico e espiritual durante o Yvyru (o grande dilúvio). Sua importância é tamanha que a “Terra Sem Males”, o paraíso buscado pelos guaranis, é frequentemente descrita como um lugar onde as palmeiras Pindo nunca deixam de dar frutos.

2 – Axis Mundi: Termo quem vem do latim e é um conceito fundamental na simbologia e na fenomenologia da religião. Ele designa um ponto central onde o céu (o plano espiritual) e a terra (o plano físico) se encontram. Esse “pilar” central permite a comunicação entre os diferentes níveis da existência. Em diversas culturas, o Axis Mundi é representado por montanhas sagradas, templos ou, como no mito de Tamandaré, por uma árvore majestosa. Ao subir na palmeira, o Pajé e sua esposa situam-se no centro estável do universo, protegidos do caos das águas, garantindo que a conexão com o divino não fosse rompida durante a destruição do mundo antigo.

Valter Cichini Jr:.

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