Yebá BëlóAproximadamente 2 min de leitura

No coração da cosmogonia dos povos Tukano, especialmente entre os Dessana, encontramos uma das figuras mais fascinantes da simbologia mundial: Yebá Bëló, a “Avó do Mundo”. Diferente de muitos mitos de criação centrados em figuras masculinas ou em lutas cósmicas, Yebá Bëló personifica o conceito de autogênese. Ela é a deusa que “apareceu do nada”, sustentando-se sobre seu banco de quartzo branco.
A simbologia de Yebá Bëló é rica em elementos que conectam a natureza humana ao cosmos:
- O Quarto de Quartzo: O quartzo, mineral de clareza e transparência, simboliza aqui o “útero cósmico”. A luz que emana de sua morada não é externa, mas interna, representando a sabedoria que nasce da introspecção.
- O Ipadu e o Tabaco: Ao mascar a coca (ipadu) e fumar o tabaco, Yebá Bëló utiliza substâncias rituais para transformar o pensamento em matéria. Na simbologia universal, a fumaça é o elemento de mediação entre a terra e o céu, o desejo e a realização.
- A Trama e a Rede: Ela moldou o universo como quem tece uma rede. Essa imagem evoca o simbolismo do destino e da interconectividade, presente também nas Moiras gregas ou na teia de Neith no Egito. Tudo o que existe está ligado por fios invisíveis criados pela Avó do Mundo.
A figura da “Mãe Primordial” de Yebá Bëló encontra eco em diversas outras culturas. No Candomblé, Nanã Buruquê representa o barro e a ancestralidade feminina máxima, na China, a deusa Nüwa é quem molda os seres humanos, e na Grécia, Gaia emerge do Caos para dar forma ao mundo. Yebá Bëló, contudo, destaca-se pelo seu isolamento criativo, ela cria através da meditação e do uso sagrado de plantas de poder, reafirmando que o universo é, antes de tudo, um ato de consciência.
Compreender a simbologia de Yebá Bëló é reconhecer a importância do sagrado feminino e da natureza como um corpo vivo e consciente. Os símbolos não são relíquias do passado; eles são ferramentas que nos ajudam a compreender nosso lugar no mundo hoje. Ao olharmos para a “Avó da Terra”, somos lembrados de que a criação exige paciência, reflexão e, acima de tudo, respeito às raízes que sustentam a vida.




